Telefone fixo: de bem de luxo declarado no IR a peça de museu tecnológico

Por Redação Você lembra da época em que ter um telefone fixo em casa era sinônimo de status? Pois é. Houve um tempo em que possuir uma linha telefônica era tão valorizado que precisava ser declarado no Imposto de Renda como ativo patrimonial. Hoje, os telefones fixos — e seus primos de rua, os orelhões…

Erik Limongi Sial – Foto divulgação

Por Redação

Você lembra da época em que ter um telefone fixo em casa era sinônimo de status? Pois é. Houve um tempo em que possuir uma linha telefônica era tão valorizado que precisava ser declarado no Imposto de Renda como ativo patrimonial. Hoje, os telefones fixos — e seus primos de rua, os orelhões — resistem como memórias de um passado não tão distante, mas completamente ultrapassado diante das telas de toque e mensagens instantâneas.

O advogado Erik Limongi Sial, especialista em direito regulatório no setor de telecomunicações, relembra que, antes da revolução digital, o Serviço de Telefonia Fixa Comutada (STFC) era protagonista da comunicação no Brasil. “Era o carro-chefe dos serviços públicos de telecomunicação, especialmente após a privatização da Telebrás em 1998, quando a telefonia móvel ainda engatinhava”, destaca.

Com a promulgação da Lei Geral de Telecomunicações (Lei nº 9.472/1997), o setor passou a operar sob os regimes público e privado. A telefonia fixa permaneceu sob concessão estatal, mas, aos poucos, viu-se ofuscada pelo surgimento de tecnologias mais dinâmicas — como a internet banda larga e os smartphones.

Quando o telefone fixo era sonho de consumo

Para quem nasceu depois dos anos 2000, pode parecer estranho, mas ter uma linha telefônica fixa era um símbolo de conquista nos anos 80 e 90. Em 1991, apenas 17,2% dos lares brasileiros tinham telefone fixo, segundo dados do IBGE. Com a privatização e os planos de expansão, esse número saltou para 37,8% em 2008 — o auge da telefonia fixa no país.

Mas o que sobe, às vezes, cai. E a queda foi vertiginosa. Em 2023, apenas 9,5% dos domicílios brasileiros ainda possuíam telefone fixo, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE. O número de linhas caiu de 45 milhões, em 2015, para 23 milhões, sendo que os domicílios foram os que mais abandonaram o serviço. Entre as empresas, a presença ainda resiste — mais por tradição e credibilidade institucional do que por necessidade.

Adeus orelhões: o futuro é digital (e sem fio)

A revolução veio mesmo com os celulares e, especialmente, com a chegada da internet 3G em 2007. Desde então, os smartphones assumiram o posto de principal ferramenta de comunicação. Hoje, há mais celulares ativos do que habitantes no Brasil — um fenômeno que não se restringe ao território nacional.

Até os tradicionais orelhões, regulatoriamente conhecidos como Telefones de Utilidade Pública (TUP), estão sendo desativados. Em Nova York, por exemplo, a última cabine telefônica foi retirada em 2022, substituída por pontos de Wi-Fi gratuitos [fonte: https://www.nytimes.com/2022/05/23/nyregion/last-payphone-removed-nyc.html%5D.

No Brasil, esse movimento ganhará força após 2025, quando vencem as concessões das operadoras originadas dos leilões de 1998. O modelo atual — que obriga empresas como a Oi e a Telefônica a manterem o serviço fixo em determinadas localidades — será substituído por autorizações com menos obrigações regulatórias [fonte: https://www.anatel.gov.br/%5D.

“A migração definitiva está prevista para até 2028. A telefonia fixa, então, deixará de ser uma exigência regulatória e será, de fato, uma relíquia de um Brasil analógico”, explica Limongi.

Relíquia ou nostalgia?

Hoje, ninguém mais liga para uma casa: a conversa acontece pelo WhatsApp, pelo Telegram, pelo Zoom ou pelas DMs do Instagram. O telefone fixo, aquele que já foi artigo de luxo, virou peça decorativa, item de brechó tecnológico e talvez, um dia, um item de exposição nos museus da comunicação.

Mas é impossível negar sua importância histórica. O fio que ligava vozes, histórias e afetos também ajudou a construir as bases da conectividade que temos hoje.

E você, ainda tem telefone fixo em casa?

Fotos: Divulgação

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